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MORTE SÚBITA: tudo o que deve saber…

MORTE SÚBITA: tudo o que deve saber…

 …para a EVITAR, PREVENIR….E TRATAR!

O que é a morte súbita?

A morte súbita é classicamente definida como um acontecimento inesperado, não provocado, em que os sintomas têm início menos de 1 hora antes, num indivíduo previamente saudável ou no qual a gravidade da sua doença não faria prever tal desenlace. Sendo a morte súbita uma situação dramática em qualquer idade, quando atinge o jovem, ela tem, como se compreende, um maior impacto mediático.


A morte súbita é frequente?

A morte súbita não é rara, atingindo em média, na população geral cerca de 100 indivíduos por cada 100 mil habitantes por ano. Aplicando estes dados a Portugal, ocorrem no nosso País cerca de dez mil mortes súbitas por ano. No entanto, e ao contrário do que habitualmente se pensa, a morte súbita é muito mais rara no jovem (1/100 mil/ano abaixo dos 30 anos de idade) do que em idades mais avançadas, sendo o facto de atingir, por vezes, atletas de alta competição levando a uma divulgação mediática, a razão pela qual se pensa que ela afecta predominantemente grupos etários mais novos.


Quais as causas de morte súbita?

Na esmagadora maioria dos casos a morte súbita resulta de doenças cardíacas (mais de 90% dos casos), mas numa pequena percentagem ela tem origem em doenças de outros órgãos, como o pulmão ou sistema nervoso central. Uma outra noção importante é que as causas de morte súbita variam em função da idade: assim, acima dos 35 anos a principal causa é, de longe, a doença das coronárias, enquanto abaixo deste grupo etário as causas são múltiplas, com predomínio para as doenças cardíacas hereditárias.


Porque é que o diagnóstico correcto da causa de morte súbita é importante?

Um aspecto fundamental na prevenção da morte súbita cardíaca consiste no estabelecimento do diagóstico correcto da doença que lhe deu origem, já que a detecção, num membro da família de uma doença hereditária potencialmente conducente a esta situação obriga ao rastreio da referida patologia nos outros familiares. Assim, nos casos de morte súbita no contexto de doença cardíaca hereditária, a família deve ser prontamente investigada e caso seja detectada a doença em familiares estes devem ser alvo das medidas de prevenção adequadas. É por isso que dizemos que o diagnóstico correcto da causa de morte súbita é um dever com implicações clínicas e preventivas óbvias – salvar vidas. E é por isso que dizemos também que a morte súbita quase nunca é o fim, mas sim o princípio da história…


Como acontece a morte súbita?

Na origem da morte súbita cardíaca intervêm três factores, doença cardíaca, precipitante e arritmia fatal. A associação entre a doença cardíaca da qual o doente sofre (substrate) e o precipitante do evento fatal (trigger), como o exercício físico intenso ou o stress emocional, entre outros, cria as condições para a ocorrência de um tipo muito grave de arritmia cardíaca – a fibrilhação ventricular- que leva à morte em segundos ou minutos.


Qual a relação entre exercício físico e morte súbita?

Como referido, o exercício físico por si só não causa morte súbita, mas pode funcionar como um precipitante (trigger) num terreno susceptível (doente com patologia cardíaca de base).


É possível que a morte súbita ocorra durante o sono?

Sim, não só é possível como não é raro, havendo até um pico na incidência (frequência) de morte súbita de madrugada e primeiras horas da manhã. Na realidade, o nosso sistema nervoso central, por acção de uma pequena mas importante glândula denominada hipófise, “acorda” a essa hora, enquanto o resto do organismo ainda dorme. A partir desse momento a hipófise faz entrar na corrente sanguínea determinadas substâncias (substâncias neurohormonais) que activam outras glândulas levando à libertação de outras substâncias como o cortisol ou a adrenalina, que nos preparam para o despertar e para o enfrentar de mais um dia. O que se passa é que em indivíduos com doença cardíaca essas substâncias, ao fazer subir a pressão arterial e a frequência cardíaca, podem funcionar como precipitantes de arritmias cardíacas malignas conducentes à morte súbita. É este o motivo, por muitos desconhecido, pelo qual o número de mortes súbitas, acidentes vasculares cerebrais, enfartes do miocárdio e crises hipertensivas (“subidas de tensão”) ocorrem de madrugada, em período supostamente de maior descanso do organismo.


Quais são as particularidades da morte súbita em adultos e idosos?

Como referido, ao contrário do que habitualmente se crê, é nestes grupos etários que a morte súbita ocorre com maior frequência, geralmente como consequência de doença aterosclerótica das artérias coronárias conducente ao enfarte agudo do miocárdio.


E quais as particularidades da morte súbita nos jovens e atletas de competição com idade inferior a 35 anos?

Felizmente são situações raras mas, também como já foi dito, têm um grande impacto mediático por atingirem doentes novos que por vezes são conhecidas figuras do desporto. As suas principais causas são as doenças hereditárias do músculo cardíaco ou miocárdio (miocardiopatias), sendo as mais frequentes a miocardiopatia hipertrófica e a miocardiopatia arritmogénica do ventrículo direito e as anomalias das artérias coronárias (congénitas ou adquiridas). Outras causas importantes, responsáveis por muitas autópsias inicialmente consideradas inconclusivas mas que, após estudos muito específicos permitem identificar a causa de morte, são as intoxicações por substâncias ilícitas por vezes utilizadas com intuito de dopping e ainda determinadas doenças cardíacas, também hereditárias, em que a anomalia é apenas a nível molecular, com alterações nas trocas de iões (sódio, potássio, cálcio,…) entre o interior e o exterior das células do coração (doenças dos canais iónicos ou “canalopatias”).


É possível prevenir a morte súbita? E é possível intervir eficazmente quando ela ocorre?

Sim, é possível prevenir a morte súbita sendo, presentemente, esta uma importante área de investigação clínica em Medicina. Em relação às possibilidades de intervenção nos casos de morte súbita é possível, através de manobras de reanimação cardiorespiratória correctas e aplicadas atempadamente impedir o desenlace fatal.


“Vale a pena” prevenir a morte súbita?

Obviamente que sim e um bom exemplo disso é o gráfico abaixo, que diz respeito à frequência anual de morte súbita nos atletas italianos entre 1980, altura em foi iniciado neste País um programa nacional de prevenção de morte súbita e o ano 2000, 20 anos após a implementação desse projecto. Verifica-se (linha contínua) que a incidência passou de cerca de 4/100 mil (em 1980) para cerca de 0,5/100 mil por ano (em 2000), prova clara que a prevenção “vale a pena”, e não só neste subgrupo, pois as manobras de prevenção de morte súbita são extremamente eficazes em todos os grupos etários.


Como se previne a morte súbita?

A prevenção de morte súbita tem duas vertentes: a prevenção primária e a prevenção secundária. Na prevenção primária as acções centram-se no indivíduo de risco mas sem nenhum episódio prévio de paragem cardio-respiratória, enquanto na prevenção secundária as acções recaem em indivíduos que já foram reanimados ou “ressuscitados” de morte súbita.


Em que consiste a prevenção de morte súbita?

A prevenção de morte súbita faz-se actuando em cada um dos três factores acima referidos que estão na sua origem, doença cardíaca, precipitante e arritmia. Em relação à doença cardíaca de base há que prevenir a sua ocorrência e tratá-la, caso ela já apresente manifestações. No que respeita ao precipitante, a atitude preventiva correcta é evitá-lo, o que passa por exemplo nas situações em que se decide pela desqualificação para o desporto de competição de indivíduos que sofram de doenças nas quais o exercício físico seja um reconhecido precipitante de morte súbita. Em relação às arritmias, a sua prevenção consiste no tratamento, quer através de medicamentos (antiarrítmicos), quer através da destruição de circuitos eléctricos intracardíacos que estão na sua origem (ablação por radiofrequência), quer através da implantação de dispositivos eléctricos (cardioversores desfibrilhadores implantáveis e pacemakers).


Ideias a reter

1. A morte súbita é frequente, afectando sobretudo adultos e idosos, apesar de ter um maior impacto mediático no jovem.

2. Na esmagadora maioria dos casos resulta de doenças cardíacas.

3. Em doentes com idade superior a 35 anos a etiologia principal é a doença das artérias coronárias.

4. Em indivíduos menores de 35 anos as causas são múltiplas, sendo as doenças cardíacas hereditárias (miocardiopatias e canalopatias) e as doenças das coronárias (congénitas ou placas ateroscleróticas não obstrutivas) as principais causas.

5. A morte súbita resulta da interação entre uma doença cardíaca e um precipitante, que origina uma arritmia cardíaca fatal.

6. O exercício físico por si só, não causa morte súbita, mas pode ser um precipitante. No entanto, muitas mortes súbitas ocorrem em repouso.

7. No caso de doenças cardíacas hereditárias o diagnóstico correcto da causa de morte é essencial para o rastreio de familiares e prevenção de morte súbita nestes indivíduos: assim, poder-se-á dizer que o DIAGNÓSTICO CORRECTO TEM IMPACTO NA PREVENÇÃO DA MORTE SÚBITA!

8. Muitas vezes A MORTE SÚBITA NÃO É O FIM, MAS SIM O PRINCÍPIO DA HISTÓRIA que, pese o sacrifício de uma vida, poderá levar a que se previna a sua ocorrência em outras pessoas!!!

 

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